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  • Esther Alcântara

Mulheres escritoras, escribas, escrevinhadoras, escavadoras de palavras...

Tenho me deparado com elas todos os dias e de forma cada vez mais intensa, não mais apenas quando olho no espelho e, enfim, reconheço-me escritora, sem mais esquivas do tipo "é, eu escrevo uns poemas...". De repente, num momento em que calar é palavra de lei, num momento de medo e angústia por tudo e tanto que de nós está sendo subtraído, e ao mesmo tempo no espaço do nada, haja visto ainda tando a construir e tantos nós a desfazer, deparo-me com mulheres que escrevem e bem escrevem, mulheres que se inscrevem no universo literário não mais timidamente, mas com propriedade, pedras preciosas que se incrustam no metal mais valioso da literatura. Por onde ando elas parecem brotar, dizendo-me com os olhos que é este o momento do encontro, do abraço, do fazer junto o mais lindo exercício comum a todas nós: literatura.

Não é pouco um coletivo chamado Mulherio das Letras, não é pouco estar com elas, como escritora e editora lançando poesia minha e contos da excelente Rita Alves, com seu sinuoso e belo "O caminho da lagarta", num encontro nacional de mulheres escritoras. Não é pouco sentir empatia, perceber e me abrir a esse encontro de propósitos. É a sensação de estar numa caverna escura e ver estalactites e estalagmites que levaram milhões de anos para ganhar aquele formato imponente, e não menos repleto de singularidades que uma digital, serem banhadas de luz. Não mais aquela luz bonita, mas rara, vinda por uma pequena fresta que a natureza tratou de providenciar, e sim grandes raios de luz vindos de milhões de aberturas criadas por vigorosos (a)braços femininos que têm sido capazes de romper com as paredes de rochas firmes e adentrar a luz. Sim, nós mulheres precisamos adentrar a luz, porque ela nunca veio até nos de graça nem virá, por conta de uma sociedade que sempre nos colocou à sombra.

Volto desse encontro lendo o livro Fissuras, da Henriette Effenberger e me fissurando pela escrita dessa encantadora pessoa. E a semana é de mais mulheres em plena fl(u)orescência na literatura: Ana Paula Maia ganha o prêmio São Paulo de Literatura na categoria melhor livro de 2017, Aline Bei ganha na categoria melhor livro de autora estreante com menos de 40 anos, e Cristina Judar leva o prêmio de autora estreante com mais de 40 anos. Quantas conquistas importantes das mulheres na literatura! Meu mais profundo sentimento de admiração e gratidão a elas pelos espaços conquistados.

Chega a sexta-feira e vou com meu companheiro ao lançamento de uma coletânea de contos escritos por mulheres, "Paisagens úmidas", que versa - e proseia - sobre a sexualidade feminina na maturidade, após os 60 anos. Algumas das escritoras já conheço, outras não. Então vou para prestigiar as amigas e fazer outras tantas, porque é mesmo aquele momento "ninguém solta a mão de ninguém", e se eu puder vou virar Shiva, para ter mais mãos e encontrar outras tantas para segurar, dessa gente, dessas mulheres que vieram no mundo pra brilhar, não pra morrer de fome nem muito menos deixar que alguém morra de fome. Porque somos do bem, não de bem! Somos da verdade, não da vacuidade! Somos do babado, sim, não do tipo liso, que se isenta e senta para esperar o mundo cair. Porque, se cair, não vamos ser soterradas, certamente! Já contei que temos braços potentes e vozes poderosas aí acima, não é?

Mas, voltando ao lançamento, essas mulheres contistas não lançaram simplesmente um livro nesta sexta, fizeram arremessos espetaculares e cestas certeiras com sua escrita! Cheguei naquele ambiente lotado de gente com olhar receptivo e logo adquiri meu exemplar da coletânea. Timidamente fui adentrando, encontrando as amigas e colhendo autógrafos, porque adoro ver em livro um manuscrito do autor, uma marca de sua identidade. Eram muitas autoras, mas só consegui contato com algumas delas: Izilda Bichara, Nanete Neves, Márcia Barbieri, Luciana Iser Setúbal, Paula Bajer, Aline Viana, Ana Clara Squilanti.

Ali mesmo, num cantinho, abri ao acaso o livro e comecei a ler o conto da Izilda Bichara; claro que, no burburinho de festa delicioso do local, não consegui ler mais que dois parágrafos, então fui para casa com fome de ler mais e mais, dada a qualidade convidativa do texto.

Mal chegamos em casa, eu e Tom deitamos abraçadinhos para ler os contos e conhecer suas protagonistas incríveis. Fiz questão de ler o conto de cada uma das autoras que autografaram para mim nesta noite, e li em voz alta, enquanto o Tom acompanhava atento, não perdendo chances de rir comigo, de namorar o texto e a mim, de rimar prosa com poesia de vida, tanta vida nos contos escritos por essas mulheres talentosas e competentes na arte de contar histórias.

Vou para a cama feliz por ser mulher, mulher leitora, mulher escritora, mulher madura, mulher menina, mulher mulher. Pronta para aproveitar o livro que tem nas mãos, na pele, na paisagem.

Carpe librum! - grito todo dia! Aproveitem o livro!

Com a certeza de que nós mulheres seremos nele cada dia mais presentes, capa e miolo.

(Imagem: Pinterest - autoria desconhecida)





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